De um "rosário" de discos metálicos nasceu a corrente elétrica.
Para a sociedade de então, eram experiências que roçavam a magia; mas os físicos desconfiavam que o estudo de tais fenómenos, que pareciam ser governados por leis bem determinadas, abriria caminho a novos conhecimentos, vastos e interessantes. Já vislumbravam relações entre os fenómenos elétricos e a química, porquanto a eletricidade parecia favorecer determinadas reações ou dissocia-ções de compostos, entre eles a água.
As experiências, contudo, apresentavam grandes dificuldades, principalmente porque só se sabia produzir eletricidade friccionando dois corpos entre si. Com essa operação, de fato, se obtém a separação de cargas elétricas superficiais, ou seja, um dos corpos passa a ter elétrons em excesso e no outro há falta deles. A diferença de eletrização resultante (negativa no primeiro e positiva no segundo) é demonstrada pela atração que se verifica entre os dois corpos.
Na época, ainda não se havia conseguido produzir a eletricidade de modo constante, com corrente fluindo continuamente através de um condutor. Existiam máquinas eletrostáticas rudimentares que serviam apenas para um número limitado de experiências. Ademais, para medir a quantidade de eletricidade com que se faziam as experiências, usavam-se procedimentos pouco sensíveis, capazes de medir cargas elétricas apenas quando estas tossem grandes. As quantidades pequenas de carga fugiam à capacidade de medida da época.
Contribuição decisiva
Foi Alessandro Volta, físico italiano, quem aprofundou os estudos dos fenómenos elétricos e conseguiu gerar eletricidade por meio de reações químicas. Construiu um estranho aparelho com moedas de cobre, discos de zinco e coxins de feltro banhados com uma solução ácida, que servia para produzir com continuidade um movimento de cargas elétricas através de um condutor. Esse aparelho — chamado pilha porque as moedas de cobre, os coxins de feltro e os discos de zinco eram empilhados uns sobre os outros — descortinava novos horizontes à pesquisa dos fenómenos elétricos, permitindo a realização de novas experiências.
Após este passo, pouco tempo bastou para que as relações entre as correntes elétricas e os campos magnéticos fossem descobertas. Para isso foi também de grande auxílio outra invenção de Volta: um dispositivo que permitia medir quantidades minúsculas de eletricidade estática.
A contribuição de Volta para o progresso da Ciência foi realmente notável, especialmente considerando ter sido um autodidata. Não se dedicou somente à eletrologia, mas se interessou profundamente na solução de diversos problemas industriais.
Mudo, mas atento
Alessandro Volta nasceu em Como, uma pequena cidade próxima de Milão, na Itália, em
Com a pilha, Volta tornou-se definitivamente famoso: foi senador e depois conde do reino da Itália. Sua pilha é chamada "rosário", porque os discos de cobre e de zinco têm um furo no centro e foram enfiados numa haste isolante. O cobre e o zinco estavam separados por feltro.
Parece ter sido esta a razão pela qual, segundo seus biógrafos, teve um desenvolvimento-muito lento, tanto que só teria começado a falar com sete anos, para grande preocupação de seus pais. Mas nos anos de silêncio, sua mente não perdeu tempo. Bem cedo o jovem Alessandro revelou uma indomável vocação para os estudos das ciências naturais, a ponto de utilizar qualquer papel que lhe viesse às mãos para fazer um registro de suas observações — levadas a efeito, às vezes, em lugares perigosos (aos doze anos pensou ter descoberto um filão de ouro num rio e, para segui-lo, quase se afogou).
Os primeiros passos
Com a morte do Conde Filippo Volta, a família fica em situação económica difícil, e o jovem Alessandro vai viver com um tio. Já era tempo de pensar no futuro: o tio quer fazê-lo estudar Direito; um professor aconselha a carreira eclesiástica. Porém, a escolha definitiva é feita pelo próprio Alessandro, que se decide pela física.
Com apenas dezesseis anos abandona o Colégio dos Jesuítas, em Como, e prossegue seus estudos sozinho, com a assistência do Cónego Gattoni, um amigo que lhe ensina os primeiros rudimentos da física e põe à sua disposição os aparelhos necessários às experiências. Com dezoito anos, Volta marca sua primeira presença: escreve uma carta ao físico G. A. Noilet, na qual exprime sua convicção de que os fenómenos elétricos podiam ser atribuídos a forças de atração de tipo semelhante àquelas gravitacionais, já descritas por Newton. Com ela demonstrava já estar amadurecido para tratar de questões bem mais profundas.
Um professor sem títulos
O estudo é uma atividade fascinante, mas nem sempre proporciona meios adequados de subsistência. Volta precisava encontrar uma atividade remunerativa para poder continuar suas pesquisas. Mesmo sem possuir títulos escolares adequados, suas experiências e estudos o haviam feito famoso em toda a Europa. E, ainda, estudando sozinho, havia aprendido latim, francês, alemão e inglês, sem deixar de lado uma boa cultura básica em física e matemática. Considerou adequada a seus interesses a carreira didáti-ca e recorreu, então, a Cario di Firmian, 3u. governador da Lombardia austríaca, para obter um emprego. Conseguiu inicialmente a nomeação para docente substituto, depois a de regente e, finalmente a de professor de física experimental nas escolas de Como — sem mesmo precisar defender tese — recebendo um salário igual ao de um professor veterano.
Em 1775, Volta inventa o eletróforo (aparelho com seu nome, atualmente), que promove a eletrização de condutores e possibilita obter altas tensões aproveitando o princípio de funcionamento do condensador, ou seja, o fenómeno de indução eletrostática. Para garantir a prioridade, comunicou a invenção a Pries-tiey. Na época era uma necessidade tornar conhecidos os resultados dos próprios estudos a alguém importante e famoso, pois ainda não existia o serviço de publicações, com que hoje conta um pesquisador. Uma carta a um cientista significava .assegurar a prioridade de uma descoberta e receber críticas e comentários úteis para levar avante pesquisas posteriores.
No ano seguinte, anuncia a invenção do eudiômetro (que ainda hoje é lembrado com seu nome). Neste aparelho provoca-se a reação entre compostos gasosos por meio de um centelha elétrica — invenção que prenunciava o advento do motor a explosão atual, no qual o oxigénio e o hidrogénio de Volta são substituídos, respectivamente, pelo ar e pêlos vapores de um combustível. Hoje, tal aparelho é encontrado nos laboratórios das escolas para demonstrar a lei com que se unem hidrogénio e oxigénio para formar a água. Mas naquela época servia para demonstrar a validade das leis das proporções definidas e para estudar as leis dos gases. De fato, Volta determinou a lei segundo a qual um gás se dilata quando é aquecido, participando, com Gay Lussac, das glórias da observação.
O êxito internacional
Em 1776, descobriu o metano, gás que havia visto emanar em fermentações subaquáticas dos pântanos. Tais estudos tornaram-no ainda mais famoso e abriram caminho, em 1779, para a Universidade de Pávia, onde foi ensinar. Em 1785, seis anos depois, os estudantes daquela universidade o elegeram reitor, de acordo com o costume da época.
Com sua mente extraordinariamente criativa. Volta sugere a Dolomieu a construção de uma pilha portátil, em uma carta de 1801.
Foi um homem dotado de elevado sentido prático, que o levou a se interessar sempre por problemas industriais. Sugeriu a fabricação industrial das vacinas, compreendeu e procurou difundir a importância do amianto para a indústria, promoveu a difusão da cultura controlada do bicho-da-sêda e tentou racionalizar o cultivo do lúpulo e da batata.
A pilha elétrica
A invenção da pilha — chamada então "órgão elétrico artificial", porque a eletricidade era gerada por um artifício e não pelo trabalho humano — data de 1800. Esta descoberta tornou-o definitivamente uma celebridade: em 1801 foi recebido por Napoleão, que desejava ver o aparelho. Recebeu posteriormente do imperador a nomeação de senador e depois conde do reino da Itália. Sua vida, então, transcorria tranquila. As raras polémicas, inevitáveis entre estudiosos, limitavam-se a divergências superficiais. Os acontecimentos políticos não o interessavam: ignorou os movimentos separatistas, aceitou a cidadania austríaca, embora considerasse como pátria somente a cidade de Como e as regiões adjacentes.
Em 1819, com 74 anos de idade e já sentindo que sua capacidade inventiva estava esgotada, retirou-se da vida ativa para morar em Cammago, onde morreu em 1827.



