Alessandro Volta

De um "rosário" de discos metálicos nasceu a corrente elétrica.

Em fins do século XVIII, um novo ramo da física fascinava os pesquisado­res: a eletricidade. Era estranho que dois corpos pudessem atrair um ao outro só porque tinham sido friccionados, geran­do aquele "fluido misterioso" chamado eletricidade (de elektron, nome grego do âmbar, o material mais sensível ao fenómeno).

Para a sociedade de então, eram expe­riências que roçavam a magia; mas os físicos desconfiavam que o estudo de tais fenómenos, que pareciam ser governados por leis bem determinadas, abriria ca­minho a novos conhecimentos, vastos e interessantes. Já vislumbravam relações entre os fenómenos elétricos e a química, porquanto a eletricidade parecia favo­recer determinadas reações ou dissocia-ções de compostos, entre eles a água.


As experiências, contudo, apresenta­vam grandes dificuldades, principalmen­te porque só se sabia produzir eletrici­dade friccionando dois corpos entre si. Com essa operação, de fato, se obtém a separação de cargas elétricas superfi­ciais, ou seja, um dos corpos passa a ter elétrons em excesso e no outro há falta deles. A diferença de eletrização resul­tante (negativa no primeiro e positiva no segundo) é demonstrada pela atração que se verifica entre os dois corpos.


Na época, ainda não se havia conse­guido produzir a eletricidade de modo constante, com corrente fluindo continua­mente através de um condutor. Existiam máquinas eletrostáticas rudimentares que serviam apenas para um número limita­do de experiências. Ademais, para me­dir a quantidade de eletricidade com que se faziam as experiências, usavam-se pro­cedimentos pouco sensíveis, capazes de medir cargas elétricas apenas quando estas tossem grandes. As quantidades pequenas de carga fugiam à capacidade de medida da época.

Contribuição decisiva

Foi Alessandro Volta, físico italiano, quem aprofundou os estudos dos fenó­menos elétricos e conseguiu gerar eletri­cidade por meio de reações químicas. Construiu um estranho aparelho com moedas de cobre, discos de zinco e co­xins de feltro banhados com uma solução ácida, que servia para produzir com con­tinuidade um movimento de cargas elé­tricas através de um condutor. Esse apa­relho — chamado pilha porque as moe­das de cobre, os coxins de feltro e os discos de zinco eram empilhados uns so­bre os outros — descortinava novos ho­rizontes à pesquisa dos fenómenos elé­tricos, permitindo a realização de novas experiências.

Após este passo, pouco tempo bastou para que as relações entre as correntes elétricas e os campos magnéticos fossem descobertas. Para isso foi também de grande auxílio outra invenção de Volta: um dispositivo que permitia medir quan­tidades minúsculas de eletricidade está­tica.

A contribuição de Volta para o pro­gresso da Ciência foi realmente notável, especialmente considerando ter sido um autodidata. Não se dedicou somente à eletrologia, mas se interessou profunda­mente na solução de diversos problemas industriais.

Mudo, mas atento

Alessandro Volta nasceu em Como, uma pequena cidade próxima de Milão, na Itália, em 18 de fevereiro de 1745. Era o sexto dos sete filhos do Conde Fi-lippo Volta e da Condessa Maria Mada­lena, que o enviaram para passar a in­fância numa localidade próxima, Bruna-te, entre pessoas de pouca cultura.

Com a pilha, Volta tornou-se definitivamente famoso: foi senador e depois conde do reino da Itália. Sua pilha é chamada "rosário", porque os discos de cobre e de zinco têm um furo no centro e foram enfiados numa haste isolante. O cobre e o zinco estavam separados por feltro.

Parece ter sido esta a razão pela qual, segundo seus biógrafos, teve um desen­volvimento-muito lento, tanto que só teria começado a falar com sete anos, pa­ra grande preocupação de seus pais. Mas nos anos de silêncio, sua mente não per­deu tempo. Bem cedo o jovem Alessandro revelou uma indomável vocação pa­ra os estudos das ciências naturais, a ponto de utilizar qualquer papel que lhe viesse às mãos para fazer um registro de suas observações — levadas a efeito, às vezes, em lugares perigosos (aos doze anos pensou ter descoberto um filão de ouro num rio e, para segui-lo, quase se afogou).

Os primeiros passos

Com a morte do Conde Filippo Volta, a família fica em situação económica di­fícil, e o jovem Alessandro vai viver com um tio. Já era tempo de pensar no fu­turo: o tio quer fazê-lo estudar Direito; um professor aconselha a carreira ecle­siástica. Porém, a escolha definitiva é feita pelo próprio Alessandro, que se decide pela física.

Com apenas dezesseis anos abandona o Colégio dos Jesuítas, em Como, e pros­segue seus estudos sozinho, com a assis­tência do Cónego Gattoni, um amigo que lhe ensina os primeiros rudimentos da física e põe à sua disposição os apare­lhos necessários às experiências. Com dezoito anos, Volta marca sua primeira presença: escreve uma carta ao físico G. A. Noilet, na qual exprime sua con­vicção de que os fenómenos elétricos po­diam ser atribuídos a forças de atração de tipo semelhante àquelas gravitacionais, já descritas por Newton. Com ela de­monstrava já estar amadurecido para tratar de questões bem mais profundas.

Um professor sem títulos

O estudo é uma atividade fascinante, mas nem sempre proporciona meios ade­quados de subsistência. Volta precisava encontrar uma atividade remunerativa para poder continuar suas pesquisas. Mesmo sem possuir títulos escolares ade­quados, suas experiências e estudos o haviam feito famoso em toda a Europa. E, ainda, estudando sozinho, havia apren­dido latim, francês, alemão e inglês, sem deixar de lado uma boa cultura básica em física e matemática. Considerou ade­quada a seus interesses a carreira didáti-ca e recorreu, então, a Cario di Firmian, 3u. governador da Lombardia austríaca, pa­ra obter um emprego. Conseguiu inicial­mente a nomeação para docente substi­tuto, depois a de regente e, finalmente a de professor de física experimental nas escolas de Como — sem mesmo precisar defender tese — recebendo um salário igual ao de um professor veterano.

Em 1775, Volta inventa o eletróforo (aparelho com seu nome, atualmente), que promove a eletrização de condutores e possibilita obter altas tensões aprovei­tando o princípio de funcionamento do condensador, ou seja, o fenómeno de indução eletrostática. Para garantir a prioridade, comunicou a invenção a Pries-tiey. Na época era uma necessidade tor­nar conhecidos os resultados dos pró­prios estudos a alguém importante e fa­moso, pois ainda não existia o serviço de publicações, com que hoje conta um pesquisador. Uma carta a um cientista significava .assegurar a prioridade de uma descoberta e receber críticas e co­mentários úteis para levar avante pes­quisas posteriores.

No ano seguinte, anuncia a invenção do eudiômetro (que ainda hoje é lembra­do com seu nome). Neste aparelho pro­voca-se a reação entre compostos gaso­sos por meio de um centelha elétrica — invenção que prenunciava o advento do motor a explosão atual, no qual o oxigénio e o hidrogénio de Volta são substituídos, respectivamente, pelo ar e pêlos vapores de um combustível. Hoje, tal aparelho é encontrado nos laborató­rios das escolas para demonstrar a lei com que se unem hidrogénio e oxigénio para formar a água. Mas naquela época servia para demonstrar a validade das leis das proporções definidas e para es­tudar as leis dos gases. De fato, Volta determinou a lei segundo a qual um gás se dilata quando é aquecido, participan­do, com Gay Lussac, das glórias da observação.

O êxito internacional

Em 1776, descobriu o metano, gás que havia visto emanar em fermentações subaquáticas dos pântanos. Tais estudos tornaram-no ainda mais famoso e abri­ram caminho, em 1779, para a Univer­sidade de Pávia, onde foi ensinar. Em 1785, seis anos depois, os estudantes da­quela universidade o elegeram reitor, de acordo com o costume da época.

Com sua mente extraordinariamente criativa. Volta sugere a Dolomieu a construção de uma pilha portátil, em uma carta de 1801.

Em seus primeiros anos de atividade em Pávia, Volta teve a oportunidade de realizar muitas viagens pela Europa, du­rante as quais ampliou seus conhecimen­tos e, ao mesmo tempo, tornou-se bas­tante conhecido.

Foi um homem dotado de elevado sen­tido prático, que o levou a se interessar sempre por problemas industriais. Su­geriu a fabricação industrial das vacinas, compreendeu e procurou difundir a im­portância do amianto para a indústria, promoveu a difusão da cultura contro­lada do bicho-da-sêda e tentou raciona­lizar o cultivo do lúpulo e da batata.

A pilha elétrica

A invenção da pilha — chamada então "órgão elétrico artificial", porque a eletricidade era gerada por um arti­fício e não pelo trabalho humano — data de 1800. Esta descoberta tornou-o defi­nitivamente uma celebridade: em 1801 foi recebido por Napoleão, que desejava ver o aparelho. Recebeu posteriormente do imperador a nomeação de senador e depois conde do reino da Itália. Sua vida, então, transcorria tranquila. As raras polémicas, inevitáveis entre estu­diosos, limitavam-se a divergências su­perficiais. Os acontecimentos políticos não o interessavam: ignorou os movi­mentos separatistas, aceitou a cidadania austríaca, embora considerasse como pá­tria somente a cidade de Como e as regiões adjacentes.

Em 1819, com 74 anos de idade e já sentindo que sua capacidade inven­tiva estava esgotada, retirou-se da vida ativa para morar em Cammago, onde morreu em 1827.